Os pobres não podem esperar

Atualizado: 22 de Ago de 2019



Vivemos numa sociedade cada vez mais acelerada e na qual ninguém gosta de esperar.


Esperar pelo UBER, esperar pela minha vez numa fila; esperar no trânsito, esperar que aquele amigo responda à mensagem que lhe enviei há 30 segundos...


ESPERAR. Verbo tão pouco aplicado nos dias de hoje.


E as pessoas mais pobres?

Porque é que os mais frágeis têm que esperar tanto pela ajuda que precisam?

Porque é que tantas vezes têm que esperar pela nossa atenção nem que seja só por 5 minutos? Que bom seria se os pobres não tivessem que esperar.


Desde cedo senti um forte apelo para ajudar os mais frágeis. Não sei exatamente quando é que isto começou, mas acredito que, através dos exemplos dos meus pais, dos meus irmãos e de uma tia muito querida, Deus foi falando comigo, mostrando-me a alegria que vem da generosidade e da entrega da nossa vida aos outros. E desde cedo percebi que queria dedicar algum do meu tempo no serviço pelos mais pobres e pelos mais frágeis.


Durante o meu percurso nesta Universidade, colaborei como voluntária em várias organizações, especialmente na APPACDM, na ACREDITAR e, mais tarde, na FONTE DA PRATA, um bairro muito muito especial.


No final do curso, parti em missão com o GRÃO para S. Tomé e Príncipe, onde estive com uma comunidade durante 2 meses. Em S. Tomé, senti-me mais próxima de Deus e foi talvez essa a missão que mudou a minha vida!


Lembro-me de estar em formação para partir em Missão e a nossa preocupação de voluntários inexperientes na altura era saber quais os projetos que íamos fazer em S. Tomé, quais os objetivos, que materiais seriam precisos…e os formadores diziam-nos

sempre:

tudo isso é importante, mas o mais importante é estarem com as pessoas com quem se cruzarem, estarem inteiros.

Quando regressei ao Porto, ia começar a procurar trabalho, e a única certeza que tinha era a de que gostava de trabalhar num sítio onde eu pudesse, através do meu trabalho, apoiar e estar mais próxima das pessoas mais frágeis, todos os dias.


Passado algum tempo, surgiu a oportunidade de entrar na VIDA NORTE: a organização onde trabalho há 8 anos e até hoje.

Trabalhar na área social é dispormo-nos a lidar com o sofrimento humano todos os dias. É receber uma mãe desesperada porque não tem dinheiro para comprar o leite que precisa para o bebé e mostrar-lhe que não está sozinha, é ir à maternidade visitar um bebé acabado de nascer e ouvir “Obrigada por terem vindo, vocês são as primeiras a conhecer o meu filho!”.

Ninguém que bate à porta da Vida Norte a pedir ajuda, tem uma história fácil para contar. São histórias de angústia, dor e sofrimento de mulheres que muitas vezes se veem sozinhas com um bebé a caminho. Histórias de solidão e luta, desespero e coragem.

A vida às vezes prega-lhes partidas, e o nosso papel é estar ao lado destas famílias, mostrando-lhes que muitas vezes, os melhores presentes da vida são os inesperados.

Enquanto psicóloga e enquanto cristã, procuro estar ao lado destas mães e dar-lhes esperança, paz, conforto e apoio naquilo que mais precisam. É tentar ser veículo de Deus todos os dias.


Para além do trabalho na Vida Norte, desde há alguns anos faço também parte dos AMIGOS DA RUA, um grupo que leva Jesus aos sem-abrigo da cidade do Porto. Muito mais do que dar alimentação ou roupa, em cada mês, dedicamos algum do nosso tempo a criar relações de amizade com estas pessoas tantas vezes ignoradas por uma sociedade acelerada e em que sentimos que “não há tempo” para nada. Nem tempo para parar e dizer “bom dia” nem tempo para perguntar “Como se chama? Posso ajudá-lo?”.

Fazer da minha Vida uma Missão de entrega aos outros não foi sempre óbvio e nem sempre é claro o caminho por onde Deus me chama a servir, quais os pobres que me pede que ajude. Há muitas formas de servirmos, muitas maneiras de amar os mais frágeis. E acredito que Deus nos chama, a cada um de nós, a estarmos atentos ao mundo à nossa volta e aos pobres que estão ao nosso lado, todos os dias. Às vezes não os vemos, outras vezes, escolhemos não ver. Às vezes procuramo-los longe, e eles estão aqui tão perto.

Seja qual for o nosso trabalho, seja qual for a nossa vocação cristã, há sempre mais a fazer pelos pobres que estão à nossa volta. No meu trabalho são normalmente as grávidas e as famílias com bebés pequenos que nos procuram. Mas em cada trabalho, em cada Missão? Quem são os vossos próximos? Que nomes têm?


Da minha varanda, vejo quase todos os dias pessoas que abrem a tampa do caixote do lixo, olham lá para dentro, tiram qualquer coisa e continuam o seu caminho. Às vezes espreitam e não tiram nada. Até quando vamos permitir que isto continue a acontecer à nossa porta?

Muitas vezes sentimos que a vida passa a correr…mas talvez a vida dos mais frágeis passe demasiado devagar, talvez a espera por alguma ajuda efetiva seja demasiado longa.


Apoiar os mais frágeis é uma necessidade universal, é um convite de Jesus para sermos o Seu rosto, naqueles com quem nos cruzarmos e que têm menos recursos e menos oportunidades.


Posso estar em Baião, no Porto, em Lisboa ou em qualquer parte do mundo, mas permanece a certeza de que há sempre alguém que espera ansiosamente pelas minhas mãos, pelos meus braços, pelas minhas palavras, pelo meu tempo.


No último Natal, vi uns sacos de uma marca de roupa onde estava escrito “Feliz união e próspero mundo novo”. Gostava de terminar lançando esse mesmo apelo: E se nos uníssemos para dar um mundo novo aos pobres que não podem esperar? Obrigada!
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