O mundo do voluntário é maior

Atualizado: Set 15

O voluntário tem a oportunidade de conhecer o mundo mais próximo do que realmente é. Porque sai do seu mundo e conhece outros mundos, outras histórias, outras lições, outras pessoas que sofrem de uma forma que não estamos habituados a conhecer e com quem temos muito para aprender.


A escrita tem esta vantagem de nos ajudar a pensar de forma estruturada. De facto, este artigo ajudou-me a pensar no significado do voluntariado e o seu impacto na minha vida.


Antes de mais, gostaria de refletir no significado de se ser voluntário. Se procurarmos o significado formal da palavra “voluntário” no dicionário encontramos a seguinte definição:

1. que se faz de livre vontade

2. sem constrangimento

3. que procede espontaneamente


Numa perspetiva etimológica, a palavra vem do Latim VOLUNTARIUS, “de própria vontade”, de VOLUNTAS, “vontade, desejo”, de VELLE, “querer”.



Portanto, tenho em crer que podemos definir voluntário como a junção dos conceitos “vontade” e “liberdade”. O termo “livre vontade” pode parecer um subtil pleonasmo à primeira vista (então mas a vontade não é livre?), de facto não é – se pensarmos no voluntariado verdadeiro, não existe nele uma vontade escrava de qualquer interesse fútil. É simplesmente tempo dedicado ao outro de uma forma gratuita, resultado de uma escolha livre. Existe um desprendimento de qualquer interesse pessoal. Mesmo quando nos sentimos gratificados emocionalmente por fazer ações de voluntariado, acredito que isso não deixa de ser um resultado da nossa escolha livre, sem ter o fim da própria gratificação em vista. Porque a partir do momento em que o voluntário passa a focar-se na gratificação que quer retirar da sua ação, então o conceito de voluntário deixa de existir segundo a sua definição, pois perde-se a componente da liberdade – o “voluntário” passa a ser escravo dessa mesma gratificação. Relativamente à componente “vontade”, acho que não poderia ser mais fiel ao que o voluntário sente na pele – de facto, quanto mais força tiver essa vontade, melhor – falo por experiência própria especialmente quando nos pomos a caminho do E.P. de Alcoentre nos dias de bom tempo, ao fim-de-semana.


Gostaria agora de me focar no tipo de trabalho voluntário no qual se estabelece uma relação direta com os seus beneficiários. Especialmente neste tipo de voluntariado, há ainda um outro conceito fundamental – o conceito do compromisso. A ação do voluntário que trabalha diretamente com os seus beneficiários é muito poderosa e pode até ser perigosa – por ser a dedicação de um tempo gratuito, livre de interesses pessoais que não o único bem do beneficiário, este atribui-lhe um valor especial. Isto é muito visível no meio prisional, em que a variável “tempo” tem tanto impacto. Quando os voluntários começam a estabelecer uma relação com os beneficiários do seu trabalho – a nossa relação com os reclusos, no caso da APAC – a sua expetativa na presença dos voluntários vai aumentando a cada sessão. Nesse sentido, se os voluntários falham o seu compromisso, o potencial de deceção vai também aumentando. Por outro lado, se o voluntário for cumprindo com o seu compromisso, a sua relação com os beneficiários vai ficando mais forte, aumentando, assim, o seu potencial de impacto positivo, o que contribui para que as defesas e máscaras da relação caiam ao longo do tempo. Ou seja, pode-se dizer que este compromisso aumenta a confiança entre as partes. Esta conquista de confiança permite que a ação do voluntário seja cada vez mais profunda e, por isso, mais eficaz. Exemplo disso foi um recluso que nos disse que a primeira vez que fez uma apresentação em público foi numa das nossas sessões do programa EtiPAC (Ética Pessoal e Acolhimento Comunitário). Isto só foi possível porque ele ganhou confiança e se sentiu num ambiente seguro para o fazer – obviamente que isto não foi logo na primeira sessão. Cito também outro testemunho marcante de um dos reclusos do nosso grupo: "Eu tinha-me decidido a nunca mais ajudar terceiros, mas esta sessão mudou essa decisão". O Rui (nome fictício) fez esta partilha durante uma sessão do programa com o tema “Os meus talentos”, na qual fizemos uma desconstrução do significado da palavra “talento” e guiámos cada participante a redescobrir e a relembrar as suas paixões. O Rui sempre foi uma pessoa reservada e só foi capaz de fazer uma partilha com tal profundidade porque mais uma vez sentiu confiança para isso. E isto só foi possível porque os voluntários estiveram presentes quando disseram que o iam estar e se comprometeram. Porque priorizaram sempre o seu tempo para estar presentes de livre vontade na data x, à hora y, com a recorrência z. Creio que este aspeto da recorrência (ex: 15 em 15 dias) com que nos comprometemos para exercer o trabalho voluntário é ainda mais importante que o número de vezes, pois é aí que colocamos a expetativa. E se não falharmos, o prémio do compromisso é o seu poder transformador nas relações – "A mudança só acontece pela relação” (Alberto Brito). Outro exemplo disso mesmo, que recomendo vivamente ler, é o testemunho que podem encontrar na carta do João – outro dos reclusos que tenho acompanhado nos programas da APAC. É por isso que acredito que o compromisso e a liberdade estão intimamente ligados, pois é pela liberdade que damos a nós próprios que nos ligamos aos outros.


“O Principezinho” ensina-nos a saber ver em cada pessoa, aquilo que a define como especial e única no mundo.

Esta é talvez a principal aprendizagem que retiro da minha experiência de cerca de 10 anos de voluntário: que só se pode ser voluntário se existir um compromisso real.


Passo a contar um pouco dessa minha história e o que me levou a ingressar como voluntário na APAC:


Comecei por ter a minha primeira experiência de voluntário, curiosamente num Estabelecimento Prisional (E.P.), com os meus 20 anos. A atividade consistia em pintar as paredes da sala de espera de uma enfermaria do E.P. com um grupo de reclusos. Essa experiência durou apenas uma semana nas férias de Carnaval da faculdade, mas foi suficiente para experimentar o impacto que este tempo teve não só nos reclusos – a alegria – mas também em mim – ouvir testemunhos de vida que saíam completamente fora da minha esfera de conhecimento. A “vontade” de fazer mais voluntariado cresceu em mim e mais tarde tive a oportunidade de ingressar numa associação na qual estive vários anos e pude experimentar fazer parte de outros projetos – visita semanal ao lar de idosos da Serafina, visita semanal ao Hospital Prisional de Caxias (em anos distintos), fins-de-semana na Casa de Saúde do Telhal. Aqui pude principalmente aprender o valor do simplesmente “estar” para as pessoas que estão mais sozinhas e o quão difícil isso pode ser para nós que estamos habituados a viver numa vida acelerada, sem tempo para parar. Aprendi a importância do saber parar – ajuda-nos principalmente a não ficarmos alienados no entretenimento a que somos solicitados constantemente e a saborear os momentos simples da vida. Nesta mesma associação, tive a oportunidade também de participar em dois projetos na Ilha do Fogo, em Cabo Verde, nos meses de verão, onde pude também conhecer outras realidades muito diferentes e conhecer a verdadeira generosidade de quem pouco tem para dar (podia despender mais umas páginas só neste ponto). Mas posso dizer que o meu maior ganho nestes tempos, foram as grandes amizades que trouxe comigo nestes projetos – quando estamos com pessoas no mesmo barco de voluntariado (comprometido), mostramos partes de nós que não mostramos habitualmente. Para se poder apoiar quem está mais frágil, é necessário colocarmo-nos também frágeis. Para ganharmos confiança, é necessário sermos autênticos. Neste contexto, há uma cumplicidade muito profunda que se ganha inevitavelmente com os que estão connosco.

Quando saí desta associação, fiz outras atividades mais pequenas, e a certa altura estive afastado dos trabalhos de voluntário durante cerca de dois anos. Durante esse tempo, só posso agradecer as alegrias que a vida me foi dando, mas precisamente por causa disso, fui sentindo que me ia tornando cada vez mais egocêntrico – o meu trabalho, o meu tempo, o meu desporto, o meu salário, as minhas viagens, os meus de quem eu gosto. Creio que por já ter vivido experiências de voluntariado, o raciocínio interior surge inevitavelmente: Eu recebo tanto -> Já vi que há quem não tenha essa sorte -> O que posso eu dar?


Há cerca de quase 3 anos, por sorte ou acaso, tive a oportunidade de tomar conhecimento do projeto da APAC Portugal e poder ingressar como voluntário. O que me apaixonou neste projeto foi a sua missão tão concreta – “transformar as vidas de todos os reclusos e pessoas que já estiveram em reclusão, fornecendo-lhes as ferramentas e estímulos necessários para a sua efetiva reinserção” – e o facto de ir ao encontro de uma franja de pessoas tão marginalizada da sociedade. Antes de começarmos o nosso trabalho de voluntário, é nos dada uma pequena formação que permitiu ter uma visão geral da realidade prisional em Portugal. Citando o Tomás Anunciação, voluntário com quem trabalho atualmente na equipa do programa EtiPAC, “…a pena de prisão tem, como fim último, a reintegração do recluso na sociedade. Mas, por mais humanista e ressocializadora que a lei seja (o que é justo e necessário), e por mais bem organizada e meritória que seja a administração pública do sistema prisional, a verdade é que tudo isto, por si só, não basta para alcançar aquele fim”. Prova disso, é até o próprio art. 40º do Código Penal português ao dizer que toda a pena tem como finalidade “a proteção dos bens jurídicos e a reintegração do agente na sociedade”, sendo que esta última parte não se confirma na prática na maioria das vezes – de facto, a reincidência criminal ronda os 70% em Portugal. E é aqui que a APAC tem um papel fundamental – trazer o objetivo teórico da lei à prática, para que possamos cada vez mais reintegrar e reabilitar pessoas, diminuir a reincidência criminal e proteger mais vítimas. O que mais me surpreendeu e me deu vontade de me comprometer com este projeto, foi a organização e o profissionalismo com que os programas da APAC estão montados – uma estrutura planeada, com objetivos concretos, e com uma execução sempre alicerçada em medição de impacto e feedback constante dos beneficiários (neste caso os reclusos) e dos voluntários. A adicionar a isto tudo, fiquei impressionado por verificar que todas as pessoas que estão envolvidas no projeto da APAC, acreditam profundamente na sua missão.


Especificamente, nos programas da APAC nos quais tenho participado como voluntário (RHI e EtiPAC), trabalhamos com o mesmo grupo de reclusos durante cerca de 3 trimestres. Tenho tido a oportunidade de encontrar grupos muito heterogéneos e construir uma relação com pessoas com histórias de vida muito diferentes. A título de exemplo, o grupo deste ano tem pessoas dos 30 aos 70 anos, de estratos sociais muito diferentes. O facto de termos de preparar as sessões para este grupo específico, tão heterogéneo, faz-nos pensar em cada pessoa individualmente, nas suas necessidades específicas. Mais uma vez, este conhecimento individual de cada um, só é possível através de uma relação que vai crescendo, devido ao compromisso, cuja consequência é ver em direto o impacto do nosso trabalho nas vidas humanas. Mesmo que numa única vida que seja, este trabalho já valeu a pena. E é por isso que, neste contexto atual de pandemia, porque acreditamos na relação individual que temos com cada um dos reclusos que temos acompanhado este ano, adaptámos a nossa presença através de cartas. Um pouco céticos ao início por não podermos continuar o nosso programa presencialmente no E.P. de Alcoentre, decidimos transmitir os conteúdos do programa, e acima de tudo esperança, através deste único meio de comunicação possível para dentro do E.P. Porque, como mencionei e nunca é de mais repetir, acreditamos que mesmo que tenhamos dado um pouco de esperança a uma única pessoa que seja, já valeu a pena. O que posso dizer é que já tivemos a alegria de receber não uma, mas várias respostas, que nos têm vindo a provar que dar uma pequena alegria ao outro compensa. O que me leva a finalizar esta minha reflexão com um pequeno resumo das principais aprendizagens, além das que já referi aqui, que tenho retirado especialmente das minhas experiências de voluntário na APAC:


1) Não existe “nós” e “eles”: de facto, uma das primeiras constatações a que um voluntário chega nos programas da APAC é que “eu podia perfeitamente ser um deles”. O preconceito cai por terra quando percebemos que muitos dos casos que ali encontramos foram frutos de pequenos facilitismos que se foram acumulando e se transformaram numa bola de neve, ou porque simplesmente as pessoas seguiram instintos que também identificamos em nós, ou até mesmo porque admiramos a sua inteligência, o conhecimento e as histórias que nos vão contando.


2) Competências humanas: tomar conhecimento de realidades de vida tão diferentes das que estamos habituados, permite-nos ganhar humildade na forma como aceitamos a diferença, ajudando-nos a saber respeitar e a dignificar qualquer pessoa que seja. Saber liderar uma discussão e promover um debate justo, não passando por cima de nenhum ponto de vista, sem privilegiar ninguém, é um outro desafio que temos em quase todas as sessões. Não só com os reclusos, mas com a própria equipa de voluntários durante a preparação das sessões, quando as opiniões divergem sobre a exploração de um determinado tema. Isto é essencial para qualquer trabalho ou função profissional que se exerça (não estou a ver nenhum trabalho que não se tenha de relacionar com uma pessoa que seja), bem como nas nossas relações pessoais.


3) O significado da presença: muitas vezes, nós voluntários, tendemos a desvalorizar esta parte porque, e bem, estamos focados na qualidade dos conteúdos que vamos levar para as sessões. Mas o que é certo é que por vezes temos luzes dos reclusos com quem trabalhamos que nos fazem voltar para o essencial – o sentido do “estar” somente. O tempo que tirei de mim para dar ao outro tem valor porque significa também o “ouvir sem julgar” ou até mesmo uma lufada de outras perspetivas e experiências que saiam da rotina repetitiva de um E.P. (para não falar dos reclusos que nem visitas têm, onde o significado da simples presença tem uma importância redobrada). Acredito que só o tempo despendido (ou investido) na simples presença, já faz uma grande diferença na vida de alguns.


4) Não ter pena, mas sim compaixão: é uma diferenciação que só é possível de entender na sua totalidade pela experiência. Posso dizer que para mim esta transição não é automática e faz parte de um processo de aprendizagem ainda em algumas situações, mais uma vez através da experiência. Na tentativa de resumir brevemente estes dois conceitos, ainda que de uma forma incompleta, creio que “ter pena” se prende com um estado de vitimização e um sentimento de injustiça que se traduz em impotência para ajudar o outro, pois não queremos aceitar o sofrimento dele. Por outro lado, a compaixão é aceitação da dor como essencial ao nosso processo de crescimento que se traduz num acolhimento do sofrimento do outro, para o viver com ele e ajudá-lo na sua superação como processo transformador construtivo, sem um sentimento de revolta. No seu livro Cessez d'être gentil soyez vrai, Thomas D’Ansembourg dá uma definição preciosa sobre o significado de cuidar, que entendo como sendo o verbo associado à compaixão: “Cuidar é ajudar o outro a viver o que ele tem que viver. Não é impedi-lo disso, nem tentar poupá-lo a um sofrimento que está no seu caminho minimizando-o (…) é sim ajudá-lo a enfrentar a sua dificuldade, a mergulhar no seu sofrimento para dele se poder libertar, com a consciência de que esse caminho só ao outro pertence e que ninguém o poderá percorrer no seu lugar.

Cuidar é dar toda a nossa atenção à faculdade, existente no outro, de curar o seu próprio sofrimento ou de resolver a sua própria dificuldade, bem mais do que lhe levar uma cura.”


5) Ser autêntico: Se queremos que os reclusos com quem trabalhamos sejam verdadeiros, temos que ser os primeiros a sê-lo, com eles e connosco próprios. Creio que ser autêntico se prende essencialmente com esta última parte – respeitar quem somos, sem máscaras. Por exemplo, se tenho um curso superior e se sou de um estrato social diferente, não tenho que ter medo de assumi-lo para me integrar no grupo de reclusos. Saber dizer que sim e que não relativamente a pedidos extraordinários dos reclusos, torna-se quase uma ciência neste meio, uma vez que temos de ser verdadeiros e justos com todos. Por outro lado, fazer promessas vãs que podemos não cumprir, só para conquistar um momento presente, pode comprometer o futuro, trazendo desilusões e desconfiança para as relações. Creio que este último ponto, está ligado com todos os outros, pois a autenticidade permite-nos tratar cada um com a dignidade que lhe é devida, ou seja, ter uma compaixão e uma presença verdadeiras.


Por tudo isto, acredito que o voluntário tem a oportunidade de conhecer o mundo mais próximo do que realmente é. Porque sai do seu mundo e conhece outros mundos, outras histórias, outras lições, outras pessoas que sofrem de uma forma que não estamos habituados a conhecer e com quem temos muito para aprender. Ou seja, acredito que tanto mais real é a nossa perspetiva da vida e de nós próprios, quanto mais vidas conhecermos na sua essência, porque são todas diferentes. E mais uma vez, creio que só podemos conhecer efetivamente estas outras vidas, se nos entregarmos genuinamente e vivermos relações autênticas, desprendidas de outros interesses. E é quem conhece o valor da vida, os seus altos e baixos, que está mais próximo de conhecer a sua verdadeira essência e ganhar mais clareza no seu caminho pessoal. E por isso, e desculpem o atrevimento, acredito piamente que o voluntário tem mais mundo (interior e exterior) do que quem nunca o foi.






Artigo escrito por Manuel Faria, voluntário da APAC

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