O ano agridoce da APAC

Todos os anos sinto esta necessidade de olhar para trás e perceber o que de melhor nos aconteceu e quais os maiores desafios que enfrentamos. Acredito muito que é nestes tempos de reflexão que novos caminhos, ideias e possibilidades nos são trazidas. Só depende de nós agarrar as ideias e possibilidades que nos aparecem para nos pôr-mos a caminho.

Tomei a decisão de chamar a esta pequena reflexão o ano agridoce, por duas razões. A primeira porque nem só de doces vive o homem. A segunda porque se não houvesse momentos mais desafiantes (“agri”) não saberíamos dar valor a tanta coisa boa que nos vai acontecendo.

Assim, hoje, não trago o possível futuro, mas sim um olhar mais cru do que foi para mim enquanto parte da APAC as três maiores conquistas e os três maiores desafios.


As Conquistas

1. Nasceu uma equipa de líderes

Em 2020 tivemos a sorte de continuar a crescer, em equipa, em voluntários, em associados e parceiros. Um dos grandes desafios que a Pandemia nos trouxe, o teletrabalho, foi o acompanhamento de cada pessoa no seu trabalho. Apesar de tudo, a APAC sempre esteve preparada para o remote work, mas se calhar nem todos individualmente estavam prontos para definir o seu próprio ritmo de trabalho e definir proativamente o que fazer. Por isso, foi necessário que cada pessoa dentro da equipa, independentemente do seu envolvimento, se tornasse um líder do seu próprio trabalho e do seu próprio impacto. E embora no primeiro confinamento (em Março) tenhamos sentido uma quebra de produtividade inicial, a verdade é que a partir de Abril tudo estava articulado e a trabalhar de forma eficiente e ágil. Foi um orgulho e um privilégio ver cada pessoa da equipa a crescer pessoalmente e profissionalmente.


2. O crescimento do Impacto

Embora já estivesse previsto, o fecho das prisões a partir de Março, levou a que todo o desenvolvimento de sistemas de suporte a quem sai em liberdade fosse acelerado. Dito isto, existem dois grandes marcos neste tópico.

O primeiro é que ao abrigo do programa incorpora, da Fundação La Caixa, criamos o Gabinete de Inserção Sociolaboral, que permite que todos os que queiram possam ser acompanhados por uma equipa profissional para conseguirem estabilizar a sua vida. Sendo a prioridade do gabinete a procura de um trabalho estável e o apoio nessa intermediação com as empresas, a equipa faz muito mais do que apenas o apoio às questões laborais. Nomeadamente, o apoio com questões relacionadas com documentação (ex. Apoio aos processos junto do SEF, processos junto da Autoridade Tributária ou Segurança Social, etc.).

O segundo grande marco complementar ao gabinete foi a criação de um programa de mentoria. Ou seja, cada pessoa que está em liberdade e que assim o deseje tem a possibilidade de ter um mentor, uma espécie de buddy, que acompanha todas as áreas da vida desta pessoa e está lá para ajudar a que o potencial de cada um seja levado ao máximo. Estruturar um programa destes implica muito trabalho de backstage, que não se vê, mas sem o qual o programa não funcionaria. Angariar mentores, formar os mentores, criar documentação de suporte (Kit de reintegração) que apoie tanto o mentor como o beneficiário, são peças essenciais para que o voltar à vida em sociedade seja um sucesso. Claro que ambos estas marcos ainda estão no seu início mas o potencial de impacto é enorme.


3. A Reshape Ceramics

A criação do negócio de impacto da APAC tem trazido muitas e boas reações. Tanto por parte dos clientes, como por parte das autoridades prisionais, e, talvez a mais importante das reações, por parte dos beneficiários.

A Reshape Ceramics nasce com três grandes objetivos: i) criar oportunidades de reinserção para pessoas que estão em reclusão (oficina no EP de Caxias) ou pessoas que já se encontram em liberdade (Atelier de produção no exterior); ii) levar a casa dos Portugueses, os clientes, peças feitas por pessoas que estão em transformação e num processo de reinserção. Garantir que a questão prisional é falada e comentada pelos portugueses. E que melhor lugar poderíamos ter para falar de temas tão importantes senão à mesa, onde muitas conversas profundas e interessantes surgem?; iii) promover mecanismos de sustentabilidade da Associação, que era, até à criação da Reshape Ceramics, 100% dependente de financiamentos, donativos e quotas de privados.

Este caminho ainda está no início e portanto, espero que, ainda muito vão ouvir falar deste movimento, mas temos que celebrar o muito que até aqui já foi atingido.


Os Desafios

1. Isolados duplamente

O confinamento, a partir de Março, levou a que os nossos beneficiários dentro das prisões ficassem ainda mais isolados. Sem visitas, sem programas de voluntariado, sem celebrações religiosas e sem escola, o isolamento que já era grande, tornou-se maior e difícil de suportar. Não sabemos a longo prazo os efeitos em termos de saúde mental, sociabilização e possibilidades de reinserção que este duplo isolamento pode trazer. Estamos solidários e tentamos, por carta, manter o espírito destes homens e mulheres vivos, mas o desafio é grande.


2. Se havia pouco dinheiro, agora há ainda menos

Existem duas ideias-chave que me acompanham neste caminho que fazemos na área social. O primeiro é uma lógica de não existirem problema sociais e tipos de público mais importantes que outros. A segunda ideia é que devemos atacar os problemas pela raiz, suprimindo as necessidades das pessoas vulneráveis, começando nas mais básicas de sobrevivência até às necessidades de realização pessoal (pirâmide de Maslow). Infelizmente é sintomático a falta de apoio e de recursos que existem no sistema prisional.

Se em 2020 (quando o ano começou) a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais já tinha uma falta de dotação orçamental de cerca de 40 milhões de euros, em 2021 o Orçamento de estado retira mais 50 milhões a este setor. Assim, será difícil promover a dignidade e a reinserção, já para não falar que várias necessidades básicas se encontram em muitos EPs num estado limite do aceitável numa democracia e país europeu.

A juntar a esta realidade, temos os apoios privados que estão também a ser canalizados para problemas estruturais de outros desafios sociais, que na verdade já existiam, mas que ficaram mais expostos e cresceram com a Pandemia. É urgente pensarmos na nossa sociedade como um todo e não continuarmos a segmentar os bons dos maus, os que merecem dos que não merecem. Só poderemos evoluir enquanto sociedade se ninguém ficar para trás, e os reclusos não podem ser cidadãos de segunda.


3. Seres Relacionais

Mais do que seres humanos, somos seres relacionais e como todos sabemos as relações fazem-se não só, mas também, de contacto físico, de abraços, de olhares, de posturas.

E sendo este um desafio transversal a toda a população mundial sentimos na APAC uma falta enorme em poder estar juntos, com a equipa, com os voluntários, com os associados, com os beneficiários. A desmotivação por vezes é grande, mas as forças vão aparecendo para darmos a volta, e sabendo que para sempre o mundo se alterará após esta Pandemia, não poderíamos estar mais desejosos que a normalidade regresse às nossas vidas para podermos estar juntos, e trabalharmos juntos por um mundo mais justo, mais igual e que dá mais oportunidades, as que forem precisas, a quem quer mudar de vida.


Dito tudo isto, e apesar dos muitos desafios grandes, não podíamos estar mais agradecidos pelo ano que passou e pelas oportunidades que nos foram dadas para crescermos o nosso impacto. 2020 foi um grande ano e 2021 seguirá certamente esta trajetória que na APAC temos conseguido criar.

A todos os que nos apoiaram e que continuam a acreditar em nós, e acima de tudo, a acreditar que ninguém é irrecuperável, resta-nos o nosso muito obrigado.







Artigo escrito por Duarte Fonseca, Diretor Executivo da APAC

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