E se todas as oportunidades nos fossem tiradas

Atualizado: 3 de Dez de 2018

(Este artigo foi originalmente publicado na edição de 19/11/2018 do Ponto sj)

Artigo escrito por: Teresa Cardoso


O que nos aconteceria se nos retirassem todas as oportunidades? Se fossemos privados disso por uma semana, um mês, um ano, uma década? Conseguimos imaginar? Teresa Cardoso ajuda-nos a fazer esta reflexão.



Temos real consciência da influência da presença dos outros no nosso dia-a-dia?


Ou seja, do quanto são responsáveis pelo nosso caminho de alegria e pela surpresa, confusão, criatividade, lucidez, de que esse caminho é composto? Pode ser a senhora de idade que passa na rua e me lembra que há vários dias que não visito a minha avó e que hoje é o dia ideal para o fazer. Ou um senhor no metro que me dá um encontrão logo pela manhã e subitamente me põe o corpo à defesa e menos preparada para dar um sorriso de bom dia aos companheiros de viagem e às primeiras pessoas que encontro no escritório. Ou, um exemplo menos fortuito, um amigo que ao longo dos últimos meses me tem visto mais preocupada e se aproxima para uma boa conversa.


O que nos aconteceria caso nos retirassem todas as oportunidades? Esses pedaços de vida que dependem de encontrarmos o outro e que, mesmo tendo tudo em conta, são vividos num ambiente de boa-vontade e cordialidade com todos? O que aconteceria, o que nos aconteceria, se fossemos privados disso por uma semana, um mês, um ano, uma década? Conseguimos imaginar?


Pergunto tudo isto para vos convidar a focar o olhar numa ideia que, em novembro de 2017, aparecia logo nas primeiras páginas do editorial da Revista Brotéria dedicada ao Dia Mundial dos Pobres. A de que, segundo o testemunho da Madre Teresa de Calcutá, a falta de amor, a solidão, o ser esquecido por todos significa a maior de todas as pobrezas e a mais difícil de remover.


Este tipo de pobreza, todos sabemos bem, vive-se em muitas áreas da nossa sociedade e anda recorrentemente de mãos dadas com a pobreza monetária e alimentar, em todo o caso hoje cabe-me falar-vos dela num contexto particular: o das 49 prisões que existem em Portugal.


Desde 2016 que sou voluntária, de 15 em 15 dias, aos sábados à tarde, numa prisão a norte de Lisboa.


No ano letivo de 2017/2018 fi-lo no âmbito da implementação do curso Relações Humanas Improváveis (RHI) da APAC Portugal. Éramos dezoito, treze reclusos e cinco voluntários, e durante dezasseis tardes fomos uma espécie de equipa-maravilha. As tardes foram passadas numa sala, sentados em roda, a ver filmes, fazer dinâmicas de grupo, debater assuntos como os conflitos interpessoais e a empatia e a ser inspirados por convidados pontuais.


No fim do curso, ao analisar os inquéritos de avaliação dos reclusos deparei-me com testemunhos tais como: “Os temas apresentados e discutidos nestas sessões foram um enorme contributo para superar os dias adversos em que me encontro. Essas são questões propícias para levantar a auto-estima que é muito difícil manter de pé nesta situação. Agradeço muito pelas vossas presenças vocês têm sido a minha esperança e família.”; “Para mim foi o melhor programa que frequentei na minha vida.”


Num primeiro momento entusiasmei-me! Aquele testemunho era uma prova clara da nossa dedicação ter tido algum impacto! “Enorme contributo”, “vocês têm sido a minha família”. Senti-me no céu, mas a sensação durou pouco.


Então, estivemos duas horas e meia a cada quinze dias com estas pessoas, nós que nem sequer estamos devidamente treinados – pelo menos não formalmente – para responder ao trabalho que se pretende fazer nas prisões, e somos o que que o sistema tem de melhor para oferecer?


Segundo a nossa legislação as penas de privação de liberdade existem não com uma finalidade punitiva, castigadora, mas sim preventiva e focada na reinserção. O nosso Código de Execução de Penas e Medidas Preventivas de Liberdade no artigo dedicado às finalidades da execução das penas refere que estas visam a “reinserção do agente na sociedade preparando-o para o conduzir a sua vida de modo socialmente responsável (…)”.


Ainda assim, os testemunhos apresentados, e muitas outras histórias vividas nos últimos anos, dão provas que a resposta que um grupo de voluntários bem-intencionados e treinados dá, está entre o que de melhor o nosso sistema tem.


Enquanto sociedade, a decisão de prender estas pessoas, por meses ou anos, não nos obrigaria a um serviço mais capaz? Ter estas vidas assim aplicadas não nos daria a responsabilidade de individualmente procurarmos refletir sobre o que queremos destas instituições e ser mais exigentes com os resultados que apresentam?


Estou francamente convencida que a indiferença que temos para com os nossos reclusos, para com as 13.440 pessoas ( dados de 2017) que se encontram presas, é um sintoma da pobreza para que a Madre Teresa de Calcutá nos tentava alertar.


Não se trata de uma apologia da abolição do sistema prisional, mas sim de um alerta para a necessidade de o melhorarmos.


Voltando ao exercício inicial, ao impacto dos outros na nossa vida. Tenho hoje consciência de que tirar a liberdade a um cidadão tem consequências mais alargadas do que inicialmente imaginei. Ao distanciarmos esta pessoa da nossa rotina tiramos a possibilidade do espanto que a nossa vida podia ter na dessa pessoa e a dela na nossa. Ouso chamar a este fenómeno a Pobreza da Oportunidade!


Porque, reparem, quando cruzamos a rua e vemos um sem-abrigo a dormir à porta de um prédio, de uma forma ou de outra, isso agita-nos, mexe com o nosso sentido de caridade. Aliás, quantos projetos de apoio a esta população não terão sido alimentados por este constante contacto?


Mas essa oportunidade não existe no meio prisional. Nem essa nem a oportunidade de ser surpreendido pelo nosso sorriso matinal a caminho do metro, ou pela brincadeira tonta de uma criança no meio da rua, ou o ar maravilhado de um turista a descobrir a nossa cidade, um adolescente simpático que ajuda uma senhora de idade a atravessar a rua. Isto só para referir algumas das oportunidades que temos ao andar na rua.


Apenas mediante um esforço deliberado poderemos quebrar esta pobreza de oportunidade. A cada um caberá encontrar a medida a que é chamado a fazê-lo, sendo que arrisco aqui alguns exemplos possíveis: Promover uma conversa entre amigos sobre a relevância das prisões? Uma conversa com um filho sobre o que será a vida de uma criança com um pai preso? A abertura de uma vaga de trabalho que aproveite os benefícios que o estado procura dar a quem contrata uma pessoa que já tenha sido condenada, promovendo assim a empregabilidade de alguma destas pessoas? Uma tentativa de conhecer um espaço prisional perto do sítio onde vivo? O desenvolvimento de um novo projeto a realizar numa prisão ou cá fora junto das famílias destas pessoas?


Quase a terminar, deixo-vos mais um testemunho na primeira voz:

"Sentado neste cadeirão onde o tempo não passa observo vultos errantes

Gritam, brigam, correm, todos com o mesmo olhar, triste, sem vida…

Presos a vidas passadas, que o tempo promete não esquecer

A noite cai, a lua toma o seu lugar no ponto mais alto da constelação

Estrelas fugidias atravessam a infinitude dos Céus

Brilho estridente ofusca a matéria, sombras, perdidas de corpos, olhares vazios, rasgam este quadro de beleza

Perdidos nesta pintura sem cor, onde a culpa foi o pincel, rompem verdades, aniquilam a esperança

Agrilhoados a muros reais, de uma vida perdida, passado tão próximo arrebatado pela dor de um presente irreal…",

Luís, 2016


Estou ciente que os homens para os quais peço atenção não são destituídos de culpa, responsabilidade e erros. Mas alguém nos disse que o nosso próximo o era?

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