As pessoas são más ou fazem coisas más?

Em teoria filosófica, é frequentemente (ou quase sempre) impossível encontrarmos uma

resposta definitiva e universalmente aceite para um dado tema ou questão. O que podemos fazer, que é também o que torna esta área tão apelativa para muitos, é discutir e debater – baseando-nos em argumentos, opiniões próprias, e opiniões de quem dedicou a sua vida à Filosofia. Uma questão já há muito tempo (e muito insistentemente) debatida na área da ética é qual a verdadeira distinção entre uma ação boa e uma ação má.


As duas vertentes mais conhecidas para abordar esta questão são a teoria de Kant que, com uma abordagem deontológica, defende que o valor moral de uma ação reside em si mesma e não nas usas consequências, e a teoria de Stuart Mill que, com uma abordagem utilitarista, defende que o valor moral de uma ação reside meramente nas suas consequências. O utilitarismo é frequentemente associado ao mote “maior felicidade para o maior número de pessoas”. Olhando para esta simplificação de duas teorias numa única frase decorrem naturalmente inúmeras situações que teriam classificações diferentes de moral ou imoral dependendo de se enveredamos pela ética Kantiana ou de Stuart Mill.


Exemplificando com uma situação prática: imaginemos que um dado indivíduo com uma família para sustentar passa dificuldades financeiras, vivendo com um orçamento apertado mês a mês. Ora num dado mês, por um qualquer motivo (imaginemos que, por exemplo, um filho tem um problema de saúde e é necessário comprar medicação que não é totalmente comparticipada) os gastos mensais têm um aumento brusco – isto leva a que no final do mês a comida comece a escassear. O indivíduo vai ao supermercado, pertencente a uma grande cadeia, e rouba alguns itens alimentares. Ora, sendo a cadeia avaliada em vários milhões de euros, o facto de o indivíduo levar 10 ou 20 € em compras sem pagar não prejudica o estabelecimento de qualquer forma minimamente significativa, mas impacta muito significativamente pela positiva a família do dito – a máxima da “maior felicidade para o maior número de pessoas” está, então, cumprida. Stuart Mill diria, portanto, que a ação do indivíduo foi moralmente correta; por outro lado, Kant diria que a ação é inerentemente incorreta, uma vez que roubar é um ato imoral, independentemente das consequências. Neste simples (mas provavelmente não incomum) exemplo vemos que decidir quando é que alguém fez algo imoral pode ser muito subjetivo.


Isto leva-nos a uma nova questão: se em muitas situações não sabemos dizer de forma

objetiva se uma ação é má, então como é que podemos decidir se um indivíduo é mau? Será que fazer algo que consideramos mau segundo os nossos valores éticos torna a pessoa má, ou será que um conjunto de ações más não torna uma pessoa em si má (e, por consequência, um conjunto de ações boas não torna uma pessoa boa)? Podemos ter uma visão mais flexível em relação à moralidade ou imoralidade de uma ação. Por exemplo, o filósofo Bernard Williams (nascido já no século XX) defende a existência de um “conjunto de motivações subjetivo” – a ideia de que o comportamento moral de cada pessoa deriva das suas motivações e convicções internas. Também o particularismo moral, um ponto de vista ético que não aceita princípios morais universais, defende que o juízo moral deve ser decidido para cada caso particular. Esta posição é contrária a outras teorias morais, como a ética deontológica de Kant e o utilitarismo de Stuart Mill. Esta visão pode ser aplicada de forma mais ou menos extrema, mas a verdade é que uma ação pode ter inúmeras consequências muito diferentes, podendo estas ser boas ou más consoantes a perspetiva, e podendo a ação ter consequências más mas que derivam de uma intenção inicialmente boa.


Assim sendo, se aceitarmos que, de facto, cada ação deve ser analisada por si só, somos

levados a concluir que uma pessoa não é boa ou má; as suas ações individuais podem ser classificadas como boas ou más conforme as suas consequências para alguns, ou conforme as suas motivações para outros. Daqui segue, naturalmente, que uma pessoa que tenha feito algo de errado não irá necessariamente continuar a ter comportamentos errados, tal como uma pessoa que fez algo de bom não terá apenas comportamentos bons. Um outro fator que é necessário ter em conta são os fatores externos: se uma pessoa que fez algo considerado errado estiver, e continuar inserida, num ambiente que propicia esse tipo de comportamentos, é natural que essa pessoa faça um maior número de ações erradas. Tal dever-se-á a um comportamento de ciclo devido ao seu ambiente externo, e não à atribuição de uma classificação de “má pessoa”. Por sua vez, uma pessoa que está inserida num ambiente que proporciona os “bons comportamentos” terá maior probabilidade de fazer boas ações devido a estes fatores externos.


É então difícil avaliar uma ação como boa ou má, tendo em conta o vasto leque de possíveis motivações e consequências de uma muito simples ação; mas mais difícil ainda, ou talvez impossível, é classificar uma pessoa como boa ou má.


Cada pessoa tem uma história, um conjunto individual de fatores externos e internos que a moldaram; não podemos mudar o passado de ninguém, mas podemos ajudar a moldar o seu futuro com as condições certas – e ajudar a proporcionar um ambiente que incentive os bons comportamentos e as escolhas mais corretas.










Artigo escrito por Sofia Belém

Voluntária da APAC


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