A minha primeira vez

Artigo escrito por: Gonçalo Gama Lobo


A primeira vez que entrei na prisão...


Foi contra tudo o que tinha imaginado/planeado/receado!


Cheguei àquele portão grande de arame farpado com muitos meses de especulação sobre o que iria encontrar ou viver, antecipei muitos cenários possíveis e como poderia reagir perante cada um deles e qual seria a melhor postura a ter para conseguir passar a mensagem que gostaria, mas sem mostrar fraquezas. Felizmente fui mais uma vez desmontado e tudo aquilo que tinha “arquitetado” não podia ter sido mais inútil, e que bom que assim foi!


Do outro lado, e depois de todas as peripécias para entrar, entregar telefones, ser revistado e sorrir o mais possível para os guardas na esperança que estivessem de bom humor, encontrei o primeiro pátio com um jardim muito calmo e silencioso. Chegámos então ao segundo portão e últimos procedimentos para, finalmente, conhecermos o nosso grupo de reclusos e fazermos a sessão de apresentação.


Ansiosos, numa sala gelada, enquanto montávamos o projetor, arrastávamos mesas e cadeiras, fomos “invadidos” por muitos sorrisos (já conhecidos pela maioria) de todos os tipos e feitios, mas todos com a mesma alegria e vontade de começar o novo ano de APAC, o ano de Labora.


Desde o primeiro ao último minuto no EP que todas as minhas ideias e pré-conceitos foram sendo desmontados e encontrei homens/rapazes/jovens iguais a mim, feitos do mesmo que eu, com sonhos, com famílias, com saudades e com uma grande vontade de terem uma segunda oportunidade...

Percebi, mais uma vez, que as minhas inseguranças e ideias feitas em relação aos outros, neste caso, em relação aos reclusos resulta única e exclusivamente de uma grande ignorância e de uma visão de quem está longe, não conhece e não os vê.


Foi uma manhã muito descontraída, muito genuína e de muita partilha. Partilhámos passados, histórias engraçadas, vontades e planos para o futuro. Que bom foi poder fazer com que estes homens com barreiras físicas grandes as pudessem ultrapassar e viver por umas horas a vida que existe lá fora e que no futuro (breve ou não) vai ser a realidade dos seus dias. Vi alguma timidez e arrependimento, mas vi sobretudo ternura, muitas saudades e muito amor, tudo materializado num desejo enorme de sair daquele lugar e voltar para as suas famílias para fazer diferente... E, para tudo isto acontecer, foi só preciso baixar as minhas guardas e esquecer-me do sítio onde estava, esquecer-me dos rótulos que estamos constantemente a pôr-lhes, do que estamos habituados (ou que até somos ensinados) a pensar deles... De repente, sem qualquer esforço e com a maior naturalidade, como se estivesse com amigos a tomar café, estava a conversar sobre a família de um recluso e a contar histórias da minha, a ouvir outro a contar-me sobre a sua paixão em fazer poesia ou só às gargalhadas com um que me descrevia as ementas da cantina de que não gostava.


Assim, depois de uma manhã que voou, depois de vê-los como realmente são, olhar para caras reais, para sorrisos reais, ouvir as suas histórias e os seus medos fez-me ver estas pessoas, que estão numa situação tão frágil, como seres humanos que são. E aqui começa toda a mudança, aqui começou a minha história dos sábados de manhã com estas pessoas iguais a mim!


1º grupo de participantes do Programa EtiPAC com voluntários no EP de Alcoentre


Saí então do EP muito incomodado, pelos “amigos” que deixei naquela triste realidade, por saber que trago comigo muitos dos seus sonhos que só serão relembrados passados 15 dias e, sobretudo, por saber que todos erramos e que não era esta a forma com que queria que lidassem com os meus erros, não queria que fosse assim a preparação para a minha segunda oportunidade, para o meu “começar de novo”. No fim de contas, a minha saída é que precisava de preparação, aí é que devia ter investido o meu tempo, preparar-me para lidar com este regresso à “liberdade” e deixá-los todos para trás, sem lhes poder dar mais nada do que a promessa do regresso em 15 dias, oxalá consiga eu/os outros voluntários/o Labora prepará-los para esta saída e para esta queda muito pouco amparada naquilo a que chamamos “liberdade”.

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