A minha experiência a viver numa prisão diferente em Itália - Diários de Viagem I


Após ouvir falar pela primeira vez na APAC Portugal, em dezembro de 2016 – no seu sucesso a nível de reincidência, na sua arrojada metodologia e nos baixos custos quando comparada com o sistema tradicional – a minha primeira reação foi de “quero ver, perceber melhor como funciona, aprender no terreno”.

Cerca de 1 mês e meio depois, parti de Lisboa para Itália com o objetivo de absorver e aprender o mais possível sobre esta metodologia, vivendo 2 semanas na Comunidade Papa Giovanni XXIII (APG23), que geria, nessa altura, 5 casas APAC.

Nos próximos meses será publicado um conjunto de artigos sobre o tema em epígrafe que pretende retratar esta experiência. As histórias apresentadas usam nomes fictícios e são baseadas em factos reais.




Depois de sair às 3 horas da manhã de casa para um voo às 5 – primeiro Lisboa - Frankfurt, depois Frankfurt - Bolonha –, apanhar o autocarro até à estação central, e descobrir o comboio regional certo, lá cheguei finalmente à estação destino.


Lusco-fusco, estação deserta, ninguém à minha espera. Na minha ingenuidade, ou imaginário descontraído, esperava um transporte confortável, um condutor que soubesse exatamente quem vinha buscar, e um percurso calmo e direto cujo único objetivo fosse de facto levar-me do ponto A ao ponto B. Distraída, lá me dei conta que tinha estacionado uma espécie de furgão velhote, de onde saía um senhor gorducho e com cara de “poucas conversas”, daqueles que ou nos adoram ou detestam, e perguntou se eu vinha para a “Associazione”. Claramente reconheci o termo como palavra mágica, agarrei na mochila e pulei para a camioneta. Uns dias depois, ao pensar nesta chegada, dei-me conta de quão poucas perguntas tinha feito e de que “Associaziones” haveria muitas, mas dada a calmaria do sítio e a minha fartura na espera, o meu cérebro recusou todas as hipóteses de procrastinar o começo da aventura. Olhando para as minhas interrogações, logo o Florestano me fez sinal de que cinto não era preciso e seguimos viagem.


Apesar de reconhecer a minha limitação na Língua Italiana e de saber à partida que o Inglês dos nossos colegas Italianos também não era muito robusto, achei que existiriam outras formas de nos desenvencilharmos. Mas com o Florestano a comunicação estava difícil – não percebia porque parávamos constantemente, nem qual era o objetivo final. O Florestano estava ainda a meio de um dia de trabalho e o ir buscar-me foi um mero desvio de rota nas suas responsabilidades – claramente escapou-me que eu era só mais “qualquer coisa” para arrebanhar no caminho.


Fomos buscar umas caixas com comida doada por um supermercado, que percebi estar quase fora do prazo, e arrumá-la numa grande arca frigorífica. Em todas as paragens eu saía, levava a tralha e achava que era ali que ficaria. Depois fazia o percurso inverso e lá para a terceira ou quarta vez comecei a apanhar o jeito. No final do expediente, depois de apanharmos caixas com tudo e mais alguma coisa, e já mais entrosados na conversa, começou a escurecer e andámos uns bons quilómetros no meio do mato.


O Florestano pergunta-me se esta é a minha primeira vez numa organização destas, naquele local, numa casa APAC. Digo que sim a tudo e ele pensa claramente que eu não faço ideia onde me estou a meter. Quando estamos mais perto pergunta-me se estou tranquila. Eu digo que sim e ao mesmo tempo penso como é estranho sentir-me profundamente tranquila num ambiente tão incerto quanto aquele.

Por fim, e passadas umas boas horas de me ter apanhado na estação, lá chego com o Florestano a uma casa acolhedora, no meio de uma quinta, numa espécie de vale – agora sim, havíamos chegado a uma casa APAC!


O grupo vai-se apresentando e eu, ainda confusa, a assimilar toda a informação e tudo o que via, sem perder nenhum detalhe, não percebo quem “é preso” e “quem não é”. Não há guardas, não há uniformes, não há qualquer distinção – apenas um conjunto de pessoas divididas entre atividades de lazer e outras funções. Quando entrei na sala a primeira impressão foi aconchegante – uma mesa comprida onde havia um grupo animado a jogar às cartas (umas cartas desconhecidas para mim, com as quais só se jogam 3 jogos e que datam do tempo dos reis, dizem eles), outro grupo a ver televisão junto a uma lareira. A casa tem toda a mobília em madeira, muitos livros e jogos e vários quadros brancos com nomes, identificação de responsáveis, pontuação da semana, o “Conselho de Confiança”; e há ainda uma equipa na cozinha, a preparar o jantar.


Uma boa parte dos recuperandos (palavra que se utiliza no Brasil, onde nasceu a metodologia APAC, para as pessoas que vivem nestas casas) é Albanesa, sendo que também há recuperandos da Somália, da Nigéria, alguns Italianos e ainda um Português. Estão claramente habituados a ter visitas de outras pessoas, pois ninguém nota muito a minha presença. Consigo chamar a atenção de um dos Albaneses com as poucas palavras que aprendi nesta língua. Entretanto descubro que viveu em Espanha e o facto de termos essa língua em comum, acaba por facilitar a conversa. Conta-me que é o mais velho de 8 irmãos e que saíu do país aos 14 anos para arranjar dinheiro para a família. O pai estava com um cancro nessa altura, mas ainda é vivo agora. Tem apenas uma irmã que casou aos 17 anos. Uma vez o seu pai disse-lhe que tinha encontrado uma rapariga bonita, que queria que ele conhecesse, com que ele devia casar. Ele disse que sim e foi conhecê-la com o pai, mas o pai dela não o deixava falar com ela. Ficou claro que a questão que se colocava era se ele queria casar com a rapariga ou não, mas não haveria cá conversas. Ele disse que não podia casar com alguém que não conhecia, mas que ela era bonita. O pai insistia, dizendo que também tinha sido assim no caso dele e que estava casado com a sua mãe há 45 anos.

Falámos um pouco da sociedade Albanesa e dos seus costumes, desde a música e das paisagens, até à forma de pensar dos homens... Dritain, como se chamava, diz que na cidade há muitos cafés e bares mas que as mulheres não entram, porque depois as pessoas começam a falar “e as pessoas falam muito”. Referindo-se à liberdade das mulheres, indica que irá depender do país onde casar - se for na Albânia, que também terá de pensar e fazer assim, porque se não depois não consegue explicar aos outros e as coisas caem mal; mas se for noutro país a mulher terá a liberdade que esse país permitir. Diz que agora só pensa em sair da APAC para arranjar alguém e criar uma família. Chegou há 1 mês à casa e diz que ainda se está a habituar porque há muitas regras...

Na APAC todos trabalham. Contam-me que um dos reclusos que está na casa vai voltar para “a prisão” (sistema tradicional) em breve, porque de vez em quando quer passar o dia na cama e dormir até tarde. Dizem-me que não pode ser - “já imaginaste se todos fizéssemos isso”? O Português, Joaquim, diz-me que a seguir ao jantar vai ligar à mãe e que tem um irmão também na prisão em Portugal. Diz que a mãe está devastada pois o irmão teve um problema no pé e vai ter de ir para o hospital da prisão ou para outra prisão com um maior acesso ao hospital, o que vai dificultar, senão mesmo impossibilitar, as visitas. O Joaquim diz-me que foi apanhado com droga na mala e que por isso está preso. O que fazia era ir à Malásia comprar droga e trazer para Milão. Pergunta aos colegas o que é o jantar e depois diz-me que prefere não comer massa com pesto. Já não falta muito tempo para sair e quer estar em forma para voltar ao futebol, por isso prefere antes salada.


À hora de jantar todos se levantam e vão pôr a mesa. Esticam as toalhas, trazem os guardanapos, a água, os grissini, o azeite, os queijos. Reza-se. O Florestano fez as hostes. Todos se benzem, escutam, voltam a benzer-se e deitam mãos à comida. Serve-se massa, várias saladas, hambúrgueres, vitela, peixe, variedades de queijo feitas na APAC. E fruta por fim. Eu não consegui passar da massa, após uma rápida prova de queijos. Fome não se passa. São 20 horas e já está tudo jantado, mesa limpa e loiça arrumada. Na APAC não há empregados ou empregadas de limpeza ou de cozinha, são os próprios recuperandos que tratam de tudo e gerem a casa.


Vejo o Joaquim com elevadas expectativas. Está confiante que a APAC está em contacto com a Embaixada de Portugal e que lhe vão arranjar um trabalho algures. Diz-me que prefere ficar longe da sua cidade de origem, que é importante estar perto da família, mas que os amigos serão os mesmos, que o bairro não vai mudar. Já esteve 3 anos e meio numa outra prisão em Itália e agora termina a pena, se tudo correr bem, na APAC. Mudou uma vez de prisão porque fez asneira, conta-me sem dizer o quê. Sento-me à lareira com o Akilah, Nigeriano, depois do jantar e diz-me que quer ser modelo. Pergunto-lhe se é apaixonado por moda e diz-me sorrindo “muito, muito”. Disse-lhe que estava num bom país para seguir esse caminho, mas ele fala-me dos encantos de França. Entretanto conheço finalmente o Marco, que gere esta casa APAC. O Marco é uma simpatia e esforça-se imenso para falar Inglês comigo. Gerir esta casa APAC significa passar lá a maior parte do tempo e ali dormir, sendo que tem outras responsabilidades na Comunidade, pelo que vai saindo e entrando ao longo do dia.


Na quinta existem 120 vacas e algumas cabras, pelo que há produção de leite e queijo e ainda se corta lenha. O Joaquim conta-me que parte dos queijos e leite são vendidos numa Cooperativa que é também da Comunidade e que ajuda com algumas despesas da mesma. No final do jantar o Joaquim junta-se ao Florestano para o papel de tradutor e deixam-me numa casa de família da Comunidade, perto da APAC. Ainda não estou totalmente por dentro das “casas de família”, mas percebo que existem famílias que dedicam a vida à Comunidade e que acolhem e adotam pessoas com os mais diversos problemas. À porta da casa está um senhor “Luca” para me receber e uma senhora muito simpática, que entendo ser a sua esposa. Mostram-me o quarto que terei só para mim com 3 camas. A casa de banho e as toalhas. Falam-me ainda do secador e das horas para o pequeno-almoço. Peço desculpa e digo que amanhã fico para conversar depois de jantar, mas que hoje preciso mesmo de dormir. Na casa estavam mais 2 rapazes e 1 rapariga, mas foi tudo o que fiquei a saber na minha chegada.


Percorro rapidamente os últimos momentos do dia antes de adormecer, e recordo-me a chegar àquele vale, entrar na casa e sentir-me em casa, sentar-me à mesa com mais uns 30 recuperandos da APAC, e de comer farta e alegremente.

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