A mentoria na transição para a liberdade: o exemplo da WayBack

O regresso à vida em sociedade após um período de reclusão é marcado por diversos desafios, que podem deixar a descoberto a vulnerabilidade da pessoa ex-reclusa ou agravar a sua situação de exclusão social. Podemos enumerar, por exemplo, dificuldades na obtenção de uma situação habitacional estável ou no acesso ao emprego. O acesso a serviços - apoio social, jurídico, saúde, etc. – torna-se por vezes demasiado administrativo e complexo, dificultando a transição para a vida em liberdade e uma reinserção efetiva. Além disso, frequentemente, a pessoa ex-reclusa regressa a um contexto disruptivo, não tendo qualquer rede de suporte, o que acaba por perpetuar a sua condição de vulnerabilidade.

Estas dificuldades podem ser agravadas quando existe, também, historial de uso de substâncias. Por exemplo, é sabido que as 48h a seguir à libertação são críticas, na medida em que se verifica um risco aumentado de overdose ou suicídio. É por isso fundamental criar respostas eficazes, de modo a diminuir as dificuldades sentidas e facilitar o processo de reintegração da pessoa ex-reclusa na sociedade. Em Outubro, a equipa da APAC teve a oportunidade de se deslocar até Oslo, na Noruega, para conhecer melhor o trabalho da WayBack, uma associação que tem uma vasta experiência na mentoria do processo de reintegração. Regressámos a Portugal muito inspirados por aquilo que vimos.



WayBack: uma associação que procura criar pontes

Em 2002, no Estabelecimento Prisional de Oslo, um grupo de indivíduos condenados a penas curtas criou a “Foundation for Life After Imprisonment”, com o objetivo de dinamizar atividades de suporte de pares, já que os apoios à reinserção social não eram suficientes,verificando-se uma grande lacuna na transição do meio prisional para a vida em liberdade. Estes indivíduos, motivados pela vontade de fazer parte da mudança, e em conjunto com o próprio Estabelecimento Prisional, contactaram um centro de reabilitação e uma organização religiosa, para solicitar o seu apoio na criação formal de uma associação sem fins lucrativos, a WayBack. Hoje, a WayBack é gerida exclusivamente por ex-reclusos e tem como principal missão apoiar o regresso à vida em sociedade de pessoas que tiveram contacto com o sistema prisional, incentivando-as a viver uma vida afastada do crime e livre de consumos de substâncias. Existem vários núcleos da WayBack, distribuídos por várias cidades da Noruega, que mantêm parceria com os Estabelecimentos Prisionais mais próximos. O trabalho desenvolvido começa, habitualmente, ainda em contexto prisional, privilegiando um acompanhamento de continuidade até à saída em liberdade e autonomia plena. Um grande foco da WayBack é promover a aproximação de reclusos e ex-reclusos à sociedade (“how can we mend the gap?”)


O programa de mentoria

A intervenção da WayBack é vocacionada, sobretudo, para o suporte de pares através de um programa de mentoria ativa que tem como objetivo prevenir o regresso ao crime e/ou o consumo de substâncias após a saída em liberdade dos indivíduos. Este trabalho parte do princípio de que todos podem mudar, se forem criadas as condições necessárias para que isso possa acontecer. Neste sentido, existe uma equipa de pessoas ex-reclusas (mais experientes), maioritariamente contratadas e também voluntárias, que estão disponíveis enquanto mentores e asseguram o acompanhamento a vários beneficiários – mentees – durante o seu período de reclusão e após a transição para a liberdade. Esta relação entre mentor e mentee pressupõe que o mentor partilhe o seu conhecimento e experiência pessoal para apoiar o mentee, incentivando-o a trabalhar no seu projeto de vida e a preparar o futuro enquanto cidadão ativo e responsável, orientando-o e ajudando-o a atingir os seus objetivos.

Numa fase inicial, o mentor e o mentee, em conjunto, irão identificar as principais necessidades e planear posteriormente um plano de trabalho para a prossecução dos objetivos identificados. Consideram-se 5 dimensões, nomeadamente, habitação, saúde, questões financeiras/dívidas, trabalho e rede social. Neste âmbito, a equipa da WayBack articula e encaminha para serviços sociais, centros de formação e emprego, serviços de saúde, etc., sempre que se revela necessário, facilitando o acesso aos serviços por parte de quem, muitas vezes, não sabe onde ou como procurar.


“User-Based Experience”

A equipa de mentores da WayBack é constituída por pessoas que tendo já cumprido uma pena de prisão e/ou tendo historial de adição, estão necessariamente há pelo menos 2 anos livres de consumos e afastadas do crime. Todos eles já estiveram no papel de mentee e, por isso, o seu conhecimento principal vem da experiência prática e não tanto dos conhecimentos académicos. Encontram-se disponíveis para utilizar o seu testemunho e experiência pessoal no apoio a outros. Muitas vezes, funcionam como figuras “modelo”, na medida em que transmitem a esperança de regresso à vida em sociedade (“I tell my story, I listen to others”).


O mentee enquanto “capitão” da sua própria vida

O apoio prestado a cada mentee parte do princípio de responsabilização: todos têm responsabilidade sobre as próprias vidas, mesmo que as condições sejam diferentes. Cada indivíduo é responsável pelo seu próprio processo de mudança e, por isso, é incentivado a dar passos concretos para atingir os seus objetivos (por exemplo, pedir ajuda). O mentor, por sua vez, atua como um coach que, em vez de oferecer as respostas ao seu mentee, procura ouvi-lo e ajudá-lo a encontrar as melhores soluções. Não é o mentor que decide pelo beneficiário ou apresenta as respostas prontas, ele apenas orienta o seu mentee através das perguntas certas e recorrendo à sua própria experiência. Através deste método, procura-se criar alguma dissonância e trazer clareza sobre o que é necessário para viver uma vida distanciada do crime e de consumos.


A importância do grupo: sentido de pertença

Para além do suporte individual (no âmbito da relação mentor – mentee), cada beneficiário é convidado a participar nas várias atividades de grupo que estão disponíveis. Existem, por exemplo, grupos de reflexão, quer em contexto prisional quer em liberdade, onde se procura promover o empoderamento de cada participante, através da reflexão conjunta, partilha e discussão de pensamentos e emoções. Uma vez em liberdade, qualquer beneficiário pode usar as instalações da WayBack, que dispõem de escritórios, salas de atividades, cozinha, salas de TV e computadores. Todos os meses é atualizado o calendário de atividades que inclui, por exemplo, jantares semanais e atividades ao ar livre. A participação nas atividades da WayBack traduz-se, muitas vezes, no sentido de pertença a um grupo, que neste caso constitui uma importante fonte de suporte social. Inclusivamente, através das pontes criadas pela equipa da WayBack, o beneficiário sente-se mais integrado na própria comunidade. Em última análise, esse deveria ser o grande objetivo do processo de reinserção: que cada indivíduo que tenha tido contacto com o sistema social seja parte ativa da comunidade.







Catarina Medeiros

Coordenadora de Apoio Social


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