3 anos de caminho... com a APAC

Atualizado: Jun 2

A minha experiência como voluntário da APAC começou há 3 anos, em 2017; e até então

pouco ou nada tinha ouvido falar deste projeto. Porquê a APAC? Porquê fazer voluntariado no meio prisional, com o qual nunca tinha tido, até então, qualquer contacto? A principal resposta para ambas as perguntas, tirando a vontade de participar em algum tipo de voluntariado, é muito simples: as pessoas que fazem parte da APAC e a paixão com que falam sobre este projeto e vivem a missão e a visão da APAC, a de que “todo o Homem é maior que o seu erro”, que todos merecemos uma segunda oportunidade na sociedade e que, para isso, é necessário humanizar o sistema prisional. São estas pessoas que garantem que todos os anos a APAC-Portugal se aproxime um pouco mais dos reclusos, dos estabelecimentos prisionais e da comunidade, e também com outros programas de voluntariado, como complemento aos já existentes, ou com novos projetos. Foi este grupo de pessoas que me fez aceitar este desafio de ser voluntário da APAC.


Ao longo destes três anos, ser voluntário APAC tem sido procurar ajudar, de alguma

forma, estes homens que viram a sua liberdade ser-lhes retirada depois do “tal erro” que

cometeram, por um momento de ambição desmedida, de imprudência ou, em alguns casos, de necessidade, e que agora se encontram num Estabelecimento Prisional (EP) controlados e vigiados 24 horas por dia, com telefonemas limitados para falar com as famílias, e visitas vez uma por semana - os que têm a sorte de ter alguém que os visite. Homens que, enfim, fazem parte de um grupo de cidadãos altamente estereotipado e alvo de preconceitos por parte da sociedade civil e tantas vezes colocados de lado por essa mesma sociedade.


Se pensarmos nesta ausência de liberdade como uma incapacidade que os acompanha

todos os dias dentro do EP, e que se torna uma incapacidade também cá fora, quando saem, vítimas dos tais estereótipos, porque não ajudá-los a prepararem-se para o reencontro com a liberdade e contribuir para que, quando saírem do EP, estejam um pouco mais preparados para as dificuldades que vão encontrar? Porque não capacitá-los para o reencontro com a sua comunidade? Esta é umas das missões da APAC, da qual eu quis e quero fazer parte.


A primeira sessão em que participei no EP de Alcoentre, com o programa RHI (Relações Humanas Improváveis) , foi uma experiência que dificilmente irei esquecer. Lembro-me de pensar, no caminho entre Lisboa e Alcoentre, no que raio estava eu ali a fazer, num sábado à tarde... “onde é que me vim meter?”. Já dentro do EP, depois da caótica entrada com o registo, a revista aos materiais e aos voluntários, lembro-me de estar na sala à espera dos participantes e pensar “e agora o que é que eu faço?!”. Só posso dizer que no fim da sessão todos estes pensamentos foram substituídos por uma sensação de propósito e vontade de continuar. A primeira sessão correu muito bem, assim como todo o programa de RHI ao longo do ano. Os participantes/reclusos, deixaram de ser pessoas estranhas e com realidades distantes e passaram a ser pessoas próximas de nós, que nos contavam as suas histórias de vida, que desabafavam sobre os seus medos, as suas preocupações dentro do EP, e os mais corajosos partilhavam ainda sonhos que têm para quando saírem em liberdade. E depois desta primeira sessão, que começou cheia de medos, passaram-se 3 anos de voluntariado, 3 programas diferentes (RHI, Labora e agora EtiPAC) e muitas, muitas reuniões de equipa e de voluntários para preparar da melhor maneira possível os conteúdos para as sessões seguintes.


O que posso dizer sobre estes 3 anos de voluntariado é que, utilizando um cliché, recebi

mais do que aquilo que dei, isso é certo! Recebi dos outros voluntários, como grupo, em que nos ajudamos mutuamente a prepararmos-nos cada vez melhor; sem este sentimento de união e de vontade nunca iríamos conseguir passar a mensagem aos participantes de uma forma tão clara. Mas atrevo-me a dizer que recebi ainda mais, sem estar de todo à espera, dos participantes das sessões, deste grupo de 10-15 homens que começaram por aproveitar estas sessões como escape à rotina mas que, aos poucos, começaram a aceitar-nos e ver-nos como pessoas em quem podiam confiar e que se mostraram dispostos a participar nas sessões de uma forma muito positiva e

cheios de humildade para aprender, mas também de ensinar. Sessões em que no final, igualmente ou mais importante que o conteúdo que tentávamos passar, eram os laços que íamos construindo e as amizades que se iam criando ao longo das 2 horas que estávamos todos juntos na sala. Tantas vezes os participantes agradeceram o facto de irmos até lá, gastarmos o nosso tempo “só” para estarmos com eles. O que eles não sabem é que para os voluntários, a cada sessão que passa, a vontade de ir ter com eles vai aumentando cada vez mais e isso só é possível com o empenho e compromisso deles, por isso, sou eu, enquanto voluntário, que lhes agradeço.


É bom saber que, ao longo deste tempo, alguns participantes receberam de volta a sua

liberdade e, quando saíram, alguns, mais cedo ou mais tarde, entraram em contacto com a APAC e estão a tentar reorganizar a sua vida e ser maiores que o seu erro. Quero acreditar que contribuí de alguma forma para o sucesso destes homens e, se assim for, quero só dizer: Obrigado APAC!






Artigo escrito por José Maria Melo e Castro voluntário da APAC

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